Até aos vinte e tal anos a força é imparável. A partir da puberdade as hormonas ajudam. A testosterona sabe que ficar quieto a um canto não ajuda a actividade reprodutora. E que algum grau de destruição entre rivais é imprescindível para a construção de réplicas melhores. Os estrogéneos costumavam produzir um efeito moderador, criando um amniótico mar de tranquilidade, também ele essencial ao acolhimento da vida replicada. Mas parece que até os estrogéneos já não são o que eram. Desde que começaram a ser fintados pelos contraceptivos e pelo aumento da esperança de vida, diminuiu a sua fama de empecilhos, oferecendo às mulheres uma década extra de vida furiosa.
Homens e mulheres entre os vinte e os trinta e tal estão aptos a despender energia no confronto com a realidade. (Os mais velhos também, se não esquecerem para que serve a energia). Não vale a pena apressar-lhes o tempo adaptativo, que vai ser longo e só termina com a despedida, em que a riqueza criativa se mantém na proporção directa dos estímulos passados.
Mas chega da perspectiva biologista. Deixemos Darwin e Dawkins trabalhar em paz.
Vamos às outras perspectivas, as que nos distinguem uns dos outros - latitudes, culturas, sistemas de crenças e de valores. Ao pensarmos nas diversas formas que o confronto com a realidade tem assumido nos últimos meses, numa breve volta ao mundo, ocorrem-nos:
- a Primavera Árabe e as suas alíneas, em particular Egipto e Líbia (duas vias opostas); Síria, onde a revolta ainda se paga com a vida
- os fundamentalistas do terror
- os guerrilheiros palestinianos
- os indignados israelitas
- os pilhadores britânicos
- os indignados europeus, destacando-se os espanhóis
- a lusa geração à rasca, que nasceu em Março e se assustou com a sua força.
A geografia da revolta atrai-nos e interpela-nos. Vamos lá percorrer o mapa-múndi, a uma distância confortável.
- A América do Norte difunde a agressividade por vários pontos de conflito exterior, evitando o caseiro (enquanto combatem no Iraque e no Afeganistão os militares não estão desempregados nem se matam uns aos outros; se querem um povo pacificado encontrem-lhe um inimigo exterior e entreguem-lhe armas para o matar).
- A América do Sul encontrou um precário equilíbrio entre o gangue traficante e o desejo de ocidentalização (bom sítio para passar férias em ressorts).
- A África subsariana está devotada à fome, à mercê do arbítrio ditado pela força, seja ela das armas, do medo ou do dinheiro ou da mistura explosiva dos três (quem luta pela sobrevivência só tem essa lei para cumprir, não conhece a transgressão).
- O mundo árabe está a derrubar Kadhafi, depois da Tunísia e do Egipto. Tão espantoso que por enquanto não é preciso dizer mais nada.
- O Médio Oriente anda como se sabe. Israel também se move.
- O Extremo Oriente é um gigante em transição de identidade. Quando conseguir ter uma visão completa da sua imagem, é provável que esbarre nas contradições (as fases de crescimento consomem toda a energia que puderem obter, só a instabilidade está pronta a explodir).
- A Ásia é o exótico destino da efervescência. Gosta de ser fotografado, exposto, desobrigado da coerência. Quanto mais estritas as normas mais disponíveis para serem transgredidas através do martírio (quando não há princípio nem fins, inventá-los já é um acto de bravura).
Antes de chegar à Europa notemos que o globo vai descrevendo um movimento de translação cultural por referência ao padrão acumulativo de bens substituíveis que o ocidente inventou para recriação dos povos e proveito de uns quantos. A este movimento, nascido da exposição global ao modelo exportado, corresponde um outro, em sentido contrário, que consiste na desagregação do espaço-força ocidental, na decadência do seu projecto identitário.
De tanto se repartir pelos cantos do mundo, o ocidente vai caindo aos pedaços. Não é uma boa coisa.
- A Europa Central respeita os horários de funcionamento: nos tempos livres a malta está autorizada a exceder os limites da consciência (não há fartura que não dê em paz).
- A Inglaterra conseguiu criar a sociedade mais desigual do espaço europeu. Como é que se reage a isso? Partindo e pilhando os alvos da cobiça, sendo esta o instrumento principal (e primário) do poder baseado na aquisição. Aplausos para os sedutores e para os seduzidos, duas faces do mesmo vazio improdutivo.
- A Europa do Sul. À rasca, pois, mas uns mais do que outros e enlevando-se nas mínimas diferenças entre si.
Não falemos dos gregos. Deixemo-los em paz com a sua história e o seu enredo trágico (beco sem saída, extirpador à solta, ninguém se salva nem ao pontapé).
Falemos de Espanha, um país dividido ao meio, que parece ter encontrado na simetria um equilíbrio sustentável. PP e PSOE, tradição e futuro, fé e laicidade. O confronto, em vez de desgastar a energia, renova-a e multiplica-a. Obriga à ousadia da lucidez e da realização. A inércia "é uma cena que a eles não lhes assiste". Por mais trambolhões que a europa dê, duvido que os espanhóis caiam derrotados. Torço por eles.
Por fim, o país que o mar não quer, a pátria de muita língua e pouco siso, a apagada tristeza e vil talento.
Explodiremos, sim, depois de espoliados, expulsos de um paraíso terrestre que obviamente não merecemos, excedentário povo num território de areia fina e clima ameno.
Explodiremos, sim, não colectivamente, mas em bandos improvisados, movidos por rastilhos menores, que os mesquinhos interesses e a esperteza saloia se encarregarão de fabricar.
Até lá estamos condenados a vaguear como zombies num mau filme de terror.
Não que alguém nos tenha condenado, simplesmente aproveitaram a aflitiva inépcia e as ancestrais trocas de favorzinhos, como quem recolhe os desperdícios.
Lamento ter tido o impulso deste desabafo logo hoje, que ainda se vive a fase semi-eufórica do quase campeonato do mundo de futebol sub-vinte ("um pouco mais de sol...").
Como é que poderia esquecer-me do futebol, esse vastíssimo campo de confronto, substituto verdadeiro da guerra e da revolta?
Que seria do universo pensante dos portugueses sem as estratégias ofensivas? Da sua capacidade de argumentação sem os lances polémicos? Do seu sentimento de injustiça sem os penaltis roubados?
Que seria do ânimo mobilizador dos portugueses se o jogo entre a pobreza e a opulência, entre a justiça e a caridade, se disputasse num campo de futebol?
Voltemos às hormonas: sim, façam o futebol e não a guerra. Esmifrem-se no debate clubístico em vez de agonizarem.
Mas que tal se encontrássemos um resto de força para criticar e reagir?
Pensamento e mãos firmes: estas são as nossas armas