Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

ninguém conta a história melhor do que nós

Comboio Cascais-Lisboa, 28 de Dezembro, uma da tarde. Um casal inglês, nos early forties, dois filhos, rapaz e rapariga, 7 a 9 anos. Funde-se o azul que vê com o que é admirado, deslumbramento recíproco.
Queremos viver em Portugal, dizem as crianças em coro, pleeeeease.
Os pais sorriem. Descem um degrau na escada do horizonte, sobem dois na escada do amor.
Têm a certeza? Querem ir para uma escola nova, passear em jardins diferentes, fazer novos amigos?
Yes, portuguese friends, yes, respondem os meninos.

Se concretizar esta paixão à primeira vista, a família será evacuada no plano de emergência traçado pelo governo britânico para a salvação dos seus cidadãos residentes em Portugal.
Ou me engano muito ou, se esse dia vier, muitos de nós, portugueses, estarão dispostos a apurar um sotaque british para se fazerem passar por súbditos de sua majestade. Para fugirem desta praia rectangular que só fascina os inocentes que ainda acreditam em coisas simples e inexplicáveis, como a cor azul, as histórias, as magias; só encanta os pequenos habitantes de uma civilização antiga, que reagiam às forças ocultas com o poder de nomear e de construir a partir dos nomes narrados a sua identidade.

A atracção do impossível é tão forte que pode levar o desejo ao exagero. Com esta ressalva, e apesar da raiva que me daria fazer a vontade ao primeiro-ministro, sinto que se fosse mais nova e livre não ficaria na pátria nem mais um segundo. De bom grado iria passar já o ano à luz de outras estrelas, sem regresso próximo. A partida de que falo, contrária ao exílio interior desta conjuntura ruinosa, parece ser o único bálsamo na ferida que nos abriu a falta de inteligência e de virtude. Abalada feliz, o oposto da saudade.
Sair daqui, não para fugir do azul que desdenhamos e que, pelos vistos, não merecemos. Apenas para respirar melhor e poder encará-lo sem que nos magoe.

Aos meninos ingleses, Joan e Paul, vamos chamar-lhes assim, desejo que não cresçam. Que não estudem finanças ou, pelo menos, que não imponham a ninguém ideias e interesses malfazejos. Que conservem os olhos azuis, mas não se chamem Thompson.
Aos meninos e aos crescidos portugueses desejo que não tenham paciência. Que celebrem o fado apenas como património imaterial, um luto imponderável em forma de música.
Que não façam preparativos para mais 48 anos.
Que falem falem falem para dizer o que querem, mesmo que a voz lhes doa.
Que não fiquem quietos a ouvir uma história, ninguém a conta melhor do que nós.

Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

não há direito

Lembram-se de quando, a propósito de situações que nos indignavam, dizíamos "não há direito"?
Pois é, uma expressão popular, que hoje poderá entrar em ficções sobre o passado, mas que o presente esqueceu.
Estranho, uma expressão tão comum ter desaparecido do falar quotidiano sem tir-te nem guar-te, sem dizer água vai, expressões estas igualmente em desuso mas por motivos compreensíveis.
A eliminação desta expressão de desabafo produtivo, que assinala a injustiça identificando-lhe a causa, significa uma mudança drástica na maneira de encarar os acontecimentos que dantes mereceriam essa reacção de espanto reprovador.

Para começar, já pouca coisa nos espanta. Habituámo-nos a aceder ao exótico, ao aberrante, ao violento, ao heróico, ao trágico, com tal excesso que tudo se nivela numa perplexidade permanentemente morna, salvo alguns sobressaltos que raras vezes alcançam o ponto de ebulição.
Através deste revestimento de indiferença, espécie de segunda pele impermeável, as emoções são induzidas com uma facilidade pueril. Basta atribuirmos um nome e uma cara à realidade (mesmo se falsificada) para que o interruptor da lágrima ou do riso seja accionado. Durante dois segundos - diante de um post ou de uma imagem, antes da seguinte - somos genuína e aceleradamente compassivos, responsáveis, irados. Depois passa.
Com curtos intervalos, andamos num estado de irritação contínua. Incomodados, desconfortáveis. Mas nada que um clique ou uma massagem não curem. Provisoriamente. Indefesos perante a realidade que nos massacra, isso sim. É isto a sobrevivência, que não costuma ser um bom indutor de liberdade ou de espírito crítico.

Quando se exclamava "não há direito", geralmente perante uma vigarice prepotente, como um simples "engano" no troco, uma balança trapaceira ou um despedimento sem motivo, estava-se implicitamente a atribuir um lugar central ao sistema de valores éticos que tínhamos interiorizado. Embora não tivéssemos em mente o "direito" enquanto conjunto de disposições legais que regulam as relações da sociedade, a absorção pela linguagem coloquial desse termo revelava que um sentimento sólido nos ligava a esse sentido próprio do sistema de justiça.
Esta ligação já não existe. Perante situações idênticas é possível que a pessoa afectada, se não tiver sido engolida pelo medo, ainda afirme o "seu" direito. Os outros, os que assistem, se não encolherem os ombros, poderão até comover-se temporariamente, ajudar e intervir pontualmente, mas é raro integrarem o sucedido numa desordem mais vasta, a necessitar de reparação que implique os espectadores. E que o direito, enquanto sistema normativo, possa repor e reparar.

Estaremos a ficar mais indiferentes perante a injustiça, a prepotência, a iniquidade?
Tenderemos a considerar normais situações que até há algum tempo nos pareciam intoleráveis e nos incitavam a agir?
Creio que começamos a interiorizar como "normais" (ou seja, em última instância, conformes com a ética e com as regras jurídicas) um círculo cada vez mais vasto de situações aberrantes, integradas numa paisagem absurda e imoral. O que é muito mais perigoso que o mero conformismo.
Com culpas repartidas, mas sobretudo atribuíveis à supremacia dos poderes não instituídos sobre os restantes, tornados difusos ou residuais (o modo quase paradoxal como se processou a mudança de governo em Itália, transformando um mau governo eleito num tecnocrático governo não sufragado sem o mínimo sobressalto democrático é o exemplo mais recente).

Se o direito fosse ainda um sistema confiável, não confiscado por poderes mais altos, se não nos faltasse   uma real referência ao direito na breve indignação, se tivéssemos uma ligação sólida às instituições democráticas, andaríamos a exclamar a toda a hora "não há direito"! E a agir em conformidade. Recusando os poderes que impõem pela força um sistema iníquo. Devolvendo à democracia o seu lugar   fundamental. Insusbtituível.      

Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

o curto dia do longo terramoto

"No primeiro dia de Novembro de 1755 Lisboa foi arruinada pelas forças combinadas de um sismo violentíssimo e invulgarmente longo, um maremoto que lançou ondas gigantescas sobre a costa e diversos incêndios, um dos quais consumiu todo o centro da capital portuguesa".
No primeiro dia de Novembro de 2011, o novo terramoto está em curso. Só agora começamos, assustados, a tentar abrigar-noa debaixo de abóbadas e portadas. A manter os filhos agachados ao pé de nós, protegendo-lhes a nuca com as mãos.
Neste peculiar terramoto não é só a terra que treme debaixo dos nossos corpos. Toda a paisagem e o ar que respiramos se movem num vórtice sufocante. O movimento caricato que descrevemos ao cair não resulta apenas da falta de equilíbrio. Caímos como parafusos em parede movediça, sentindo-nos incapazes de furar ou esbracejar.

"O Terramoto ou Desastre de Lisboa, como foi chamado pelos contemporâneos estrangeiros, era certamente uma singularidade, uma ruptura violenta da ordem histórica. Se há candidatos sérios a "dia que mudou o mundo", o 1º de Novembro de 1755 é um deles".
Desta vez o dia prolonga-se por muitíssimas horas penosas. Ignoramos qual foi a primeira (a falência do Lehmon Brothers? A birra de Merkel? As notações da Moody's?). Ignoramos quando será a última.
Sabemos, sim, desta vez sabemos, que a culpa não cabe a Deus nem à Natureza.
Nem a nós, pequenos parafusos.
Quem nos pôs a sonhar com extensões de areia fina e betão, onde saltitámos imaginando-nos artistas, são os mesmos que nos roubam sonho, vida e paz.

Para eles não merecemos nem um R.I.P. Querem-nos a expiar uma culpa alheia, mesmo depois de mortos.

Resta-nos a dignidade de não morrermos quietos. Somos muitos, não somos? Somos parafusos, não somos? Os parafusos sabem onde dói.

(citações de "O Pequeno Livro do Grande Terramoto" - Rui Tavares)  

Sábado, 8 de Outubro de 2011

o pombo paga portagem

Estás triste, diz o pombo. Estou, digo eu. Nem pergunto porquê, diz o pombo. Mas eu digo, digo eu. A peste existe. Bem sei, diz o pombo. Explode junto a nós quando a julgamos apenas diluída na porcaria geral, digo eu. Dizes bem, diz o pombo. Vá lá, voa. Voarei, digo eu. Se puder. Morreu-me um amigo que era pintor, escrevi para ele uns versos em 2001, salvo erro. Sorry, diz o pombo. Também me sinto entroviscado, tenho que pagar portagens em vários pontos do céu português. Como?!, digo eu. Ordens do governo e da troika, diz o pombo. E então?, digo eu. Conheço caminhos que eles nem sonham, diz o pombo. É chato, acredita. Offshores do espaço sideral, digo eu. Não, diz o pombo. Tudo in shore. Rizomas abscônditos, nenhum parvo do poder os apanha. Ho capito, digo eu. Vá lá, voa. Anda comigo, eu levo-te à borla, e voa contra a peste, diz o pombo. Contra todas as pestes. Ok, digo eu.
jmm

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011

volta ao mundo em onze pontapés

Até aos vinte e tal anos a força é imparável. A partir da puberdade as hormonas ajudam. A testosterona sabe que ficar quieto a um canto não ajuda a actividade reprodutora. E que algum grau de destruição entre rivais é imprescindível para a construção de réplicas melhores. Os estrogéneos costumavam produzir um efeito moderador, criando um amniótico mar de tranquilidade, também ele essencial ao acolhimento da vida replicada. Mas parece que até os estrogéneos já não são o que eram. Desde que começaram a ser fintados pelos contraceptivos e pelo aumento da esperança de vida, diminuiu a sua fama de empecilhos, oferecendo às mulheres uma década extra de vida furiosa.
Homens e mulheres entre os vinte e os trinta e tal estão aptos a despender energia no confronto com a realidade. (Os mais velhos também, se não esquecerem para que serve a energia). Não vale a pena apressar-lhes o tempo adaptativo, que vai ser longo e só termina com a despedida, em que a riqueza criativa se mantém na proporção directa dos estímulos passados.
Mas chega da perspectiva biologista. Deixemos Darwin e Dawkins trabalhar em paz.

Vamos às outras perspectivas, as que nos distinguem uns dos outros - latitudes, culturas, sistemas de crenças e de valores. Ao pensarmos nas diversas formas que o confronto com a realidade tem assumido nos últimos meses, numa breve volta ao mundo, ocorrem-nos:
- a Primavera Árabe e as suas alíneas, em particular Egipto e Líbia (duas vias opostas); Síria, onde a revolta ainda se paga com a vida
- os fundamentalistas do terror
- os guerrilheiros palestinianos
- os indignados israelitas
- os pilhadores britânicos
- os indignados europeus, destacando-se os espanhóis
- a lusa geração à rasca, que nasceu em Março e se assustou com a sua força.

A geografia da revolta atrai-nos e interpela-nos. Vamos lá percorrer o mapa-múndi, a uma distância confortável.
- A América do Norte difunde a agressividade por vários pontos de conflito exterior, evitando o caseiro (enquanto combatem no Iraque e no Afeganistão os militares não estão desempregados nem se matam uns aos outros; se querem um povo pacificado encontrem-lhe um inimigo exterior e entreguem-lhe armas para o matar).
- A América do Sul encontrou um precário equilíbrio entre o gangue traficante e o desejo de ocidentalização (bom sítio para passar férias em ressorts).
- A África subsariana está devotada à fome, à mercê do arbítrio ditado pela força, seja ela das armas, do medo ou do dinheiro ou da mistura explosiva dos três (quem luta pela sobrevivência só tem essa lei para cumprir, não conhece a transgressão).
- O mundo árabe está a derrubar Kadhafi, depois da Tunísia e do Egipto. Tão espantoso que por enquanto não é preciso dizer mais nada.
- O Médio Oriente anda como se sabe. Israel também se move.
- O Extremo Oriente é um gigante em transição de identidade. Quando conseguir ter uma visão completa da sua imagem, é provável que esbarre nas contradições (as fases de crescimento consomem toda a energia que puderem obter, só a instabilidade está pronta a explodir).
- A Ásia é o exótico destino da efervescência. Gosta de ser fotografado, exposto, desobrigado da coerência. Quanto mais estritas as normas mais disponíveis para serem transgredidas através do martírio (quando não há princípio nem fins, inventá-los já é um acto de bravura).

Antes de chegar à Europa notemos que o globo vai descrevendo um movimento de translação cultural por referência ao padrão acumulativo de bens substituíveis que o ocidente inventou para recriação dos povos e proveito de uns quantos. A este movimento, nascido da exposição global ao modelo exportado, corresponde um outro, em sentido contrário, que consiste na desagregação do espaço-força ocidental, na decadência do seu projecto identitário.
De tanto se repartir pelos cantos do mundo, o ocidente vai caindo aos pedaços. Não é uma boa coisa.

- A Europa Central respeita os horários de funcionamento: nos tempos livres a malta está autorizada a exceder os limites da consciência (não há fartura que não dê em paz).
- A Inglaterra conseguiu criar a sociedade mais desigual do espaço europeu. Como é que se reage a isso? Partindo e pilhando os alvos da cobiça, sendo esta o instrumento principal (e primário) do poder baseado na aquisição. Aplausos para os sedutores e para os seduzidos, duas faces do mesmo vazio improdutivo.
- A Europa do Sul. À rasca, pois, mas uns mais do que outros e enlevando-se nas mínimas diferenças entre si.
Não falemos dos gregos. Deixemo-los em paz com a sua história e o seu enredo trágico (beco sem saída, extirpador à solta, ninguém se salva nem ao pontapé).
Falemos de Espanha, um país dividido ao meio, que parece ter encontrado na simetria um equilíbrio sustentável. PP e PSOE, tradição e futuro, fé e laicidade. O confronto, em vez de desgastar a energia, renova-a e multiplica-a. Obriga à ousadia da lucidez e da realização. A inércia "é uma cena que a eles não lhes assiste". Por mais trambolhões que a europa dê, duvido que os espanhóis caiam derrotados. Torço por eles.

Por fim, o país que o mar não quer, a pátria de muita língua e pouco siso, a apagada tristeza e vil talento.
Explodiremos, sim, depois de espoliados, expulsos de um paraíso terrestre que obviamente não merecemos, excedentário povo num território de areia fina e clima ameno.
Explodiremos, sim, não colectivamente, mas em bandos improvisados, movidos por rastilhos menores, que os mesquinhos interesses e a esperteza saloia se encarregarão de fabricar.
Até lá estamos condenados a vaguear como zombies num mau filme de terror.
Não que alguém nos tenha condenado, simplesmente aproveitaram a aflitiva inépcia e as ancestrais trocas de favorzinhos, como quem recolhe os desperdícios.

Lamento ter tido o impulso deste desabafo logo hoje, que ainda se vive a fase semi-eufórica do quase campeonato do mundo de futebol sub-vinte ("um pouco mais de sol...").
Como é que poderia esquecer-me do futebol, esse vastíssimo campo de confronto, substituto verdadeiro da guerra e da revolta?
Que seria do universo pensante dos portugueses sem as estratégias ofensivas? Da sua capacidade de argumentação sem os lances polémicos? Do seu sentimento de injustiça sem os penaltis roubados?
Que seria do ânimo mobilizador dos portugueses se o jogo entre a pobreza e a opulência, entre a justiça e a caridade, se disputasse num campo de futebol?

Voltemos às hormonas: sim, façam o futebol e não a guerra. Esmifrem-se no debate clubístico em vez de agonizarem.
Mas que tal se encontrássemos um resto de força para criticar e reagir?
Pensamento e mãos firmes: estas são as nossas armas


Domingo, 31 de Julho de 2011

diferentes maneiras de chegar

Já estava quase convencida de que o futuro seria o regresso à era das cavernas, ao tempo anterior àquele em que o homem mergulhou a mão na tinta para deixar na parede a marca da interrogação. Mas eis que dou com ele, sentado no bar das chegadas do aeroporto de Lisboa.

Tinha casualmente assistido em directo através da CNN ao terror da deflagração em Oslo. Utoya era ainda uma ilha abstracta onde parecia ter ocorrido um incidente com armas de fogo. Como toda a gente, vociferei contra o fundamentalismo islâmico durante aquela primeira hora. Até arranjei maneira de encaixar a data: 22, o dobro de 11, bendita matemática.
Depois foi o que se viu, para crer.
Todos os extremismos enlouquecem. O próprio facto de acolhermos o discurso do ódio, de o absorvermos e integrarmos como se fosse natural, como se fosse democrático, significa que estamos dispostos a recuar ao tempo primitivo.

Foi então, algumas horas depois, que vi o compositor no bar do aeroporto. Loiro, olhos azuis, sentado frente ao portátil. Concentrado na música, o tronco marcando o compasso na cadeira, os pés marcando-o no chão. De vez em quando os braços formavam o andamento, um ou o outro, um ao outro, a mão ajudada pela outra mão.
Não sei o que estudava, o que compunha. Ignoro se o tumulto de tantas vozes desassossegadas pela viagem, tão distintas maneiras de chegar, integravam o seu processo criativo. Não quero saber se a música a germinar na cabeça do compositor há-de um dia ser banda sonora de uma carnificina perpetrada pelo ódio.
Sei, sim, que enquanto se mergulha a mão na tinta, enquanto se desenha a partitura, enquanto se interrogam as palavras, há um homem que cresce e se anuncia, sem vontade de retroceder.    

Sábado, 11 de Junho de 2011

a t-shirt do che guevara

Segunda-feira, 6 de Junho, de manhã. O casal à minha frente vinha regular as responsabilidades parentais da filha, depois da separação. Tudo amigável, tranquilo, para variar. O único problema era o da pensão. O homem, nos seus trintas envelhados, encardidos, humildes, não tinha como dar um cêntimo. Faz empreitadas para carteiros (encarrega-se de distribuir revistas, maçada que eles dispensam) e ganha à peça. No máximo 150 euros por mês. Os braços fraquitos, apesar de tatuados, não dão para mais. É a vida.
E agora?
Agora (dizia ele) talvez o Fundo de Garantia.
Estava a pensar no Fundo de Garantia de Alimentos devidos a Menores, criado para substituir o devedor, quando este falha e o rendimento per capita do agregado da criança é inferior ao salário mínimo nacional (depois de um dos PEC a Lei da condição de recursos baralhou a fórmula, a criança passou a contar metade, muita gente perdeu o direito à intervenção do FGADM).

O Fundo de Garantia? Com o programa da troika??
O senhor sabe em que país é que vive?
Por acaso (olha para a ex-mulher, em busca de socorro) nem sei quem é que ganhou as eleições. Quem é que ganhou?
Elucidado, o sorriso cabisbaixo deixa à mostra os dentes de tabaco e sabe-se lá mais o quê.

A diligência ia chegando ao fim. O meu impulso de curiosidade foi irresistível
O senhor foi votar?
Fui, mas...
Começou a levantar-se, molemente. A t-shirt do Che Guevara estava tão amarrotada como o sorriso, como os dentes, como ele.
Mas o meu partido é dos pequeninos, nunca ganha. É o PNR.

Deixo esta história verdadeira, passada em Lisboa, à atenção da esquerda. Especialmente do socialismo democrático.
Que tal irem conhecer a realidade? Irem por aí, em acções não de campanha mas de genuíno entendimento, perceber como vivem as pessoas, o que pensam as pessoas, o que são as pessoas?
No mundo da crueldade económica as pessoas, incluindo o "precariado", votam em quem "pode fazer alguma coisinha pelos pobres". Em quem pode. Em quem manda. Ou então esperneiam ao deus-dará, sem alvo à vista. As armas que têm na mão são coloridos boomerangs envenenados.

Nos territórios sinistrados o ânimo transformador costuma ficar de rastos. A ideia de transformação tem sido humilhada como fantasia extra-terrestre. É assim mesmo, ridícula e moribunda, que os poderosos a querem.
Não precisamos de a tratar como espécie em vias de extinção. Precisamos, sim, de a reinventar, com conhecimento, imaginação e liberdade. Perguntas: quem somos "nós"? Quem podemos vir a ser? O que queremos? Lá mais para diante, então, como vamos fazer?