Sábado, 11 de Setembro de 2010

implosão social - a ideologia da excrescência

Título de Expresso de hoje: "O risco de uma explosão social".
Não creio que o risco seja grande. Os pobres, humilhados, descrentes portugueses não tendem a explodir colectivamente.  Explode, cada um para seu lado, nos impropérios contra o árbitro, contra o outro condutor, contra o cônjuge ali à mão, contra o vizinho e contra "eles" em geral. Não contra o poder identificado, mas contra um conjunto informe dos que "estão no poleiro", "só querem tacho" e "são todos iguais".
A realidade está bem descrita no artigo do semanário. Pecará por defeito, penso, olhando para os desamparados que se revezam nas cadeiras do tribunal onde trabalho. Mas o desamparo não os revolta contra o alvo, antes os indispõe contra quem pretenda ajudá-los. Não querem que se metam na sua vida. Têm razão. Não deviam precisar de ajuda. Deviam ver-lhes reconhecidos direitos. Mas quais direitos? Lá bem encadernados continuam eles, porém vislumbram-se na prática? Nem por isso.
O poder, o poder que realmente decide, conhece esta ignorância e dela se aproveita. Precisamos, enquanto país, de cortar drasticamente a despesa? Claro, claríssimo. Mãos à obra. Reflictam, pensem, planeiem, decidam: cortar no excesso, na adiposidade, na excrescência. Aliás tiveram muitos anos para reflectir e planear, mas sem sucesso. Continuemos com a edição de hoje do "Expresso", Martim Avillez Figueiredo: "Um médico húngaro descobriu que bastava lavar as mãos e menos mães morreriam ao dar à luz. A despesa pública é como a falta de higiene desses velhos obstetras: basta limpá-la para que menos contribuintes morram estrangulados com o aumento de impostos". "43% dos impostos foram pagos por famílias com rendimentos entre 32 e 50 mil euros brutos por ano. São os pobres e os remediados quem financia esta despesa".
E, claro, os paupérrimos, com os cortes nas prestações sociais.

Quando começaram a fazer cortes cegos em tudo quanto é bolso (preservando, naturalmente, os que têm soberania sobre os bolsos alheios) pensei, credulamente, que era "apenas" insensibilidade social. Com este raid cirúrgico contra as prestações sociais percebi que não se trata de injustiça, mas sim de perversidade (ou de falta de coragem, o que, no contexto, vai dar ao mesmo).
Sim, como diz o "Expresso", "os idosos e as crianças são os elos mais fracos". Curiosamente são também aqueles que não têm voz nem corpo para reagir. Nem sequer para marchar avenida abaixo quanto mais para agir livre e organizadamente.

Estado social na Constituição? Claro. É essencial que lá esteja para evitar a legalização da selva. Se houvesse uma Europa capaz, próxima dos cidadãos, também estaria nos Tratados. Talvez não assistíssemos a esta imposição do caminho único, a que ("Expresso" outra vez) Ricardo Costa chama "A revisão constitucional de Bruxelas".
Mas não seria mais sério que o "Estado Social", ou seja, aquele que assegura aos cidadãos os serviços básicos de saúde, educação, justiça, cultura, saltasse da retórica para a vida?
A vida nossa, a vida vidinha de cada um, idosos, crianças, desempregados, empregados a custo zero, precariado, mulheres com três empregos para sustentar os filhos abandonados no espaço escolar, homens em biscate permanente, 24 sobre 24 horas.
Todos alvos a abater numa carreira de tiro.
Todos excedentários, a verdadeira excrescência aos olhos do poder capitalista. A excrescência que o sustenta.

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