Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010

mãe, um ano depois


Então houve o dia em que os pés esqueceram o ritmo da máquina de costura. As pernas esqueceram o caminho para o mercado. As vizinhas deixaram de coscuvilhar portas adentro. As paredes esconderam o horizonte. Como uma pedinte, mendigava até por um copo de água no cárcere do lar que fora meu. O bolor bichando a casa e o corpo amarrado, sem chegar nem a meio caminho dos olhos estarrecidos.
Quando perdia um movimento, um irmão, uma palavra, pensava que fora a perda última. Que as perdas estão contadas pelo poder superior, tão compassivo que encurtaria o número final. Com muito pensamento piedoso, de parte a parte, talvez pudesse mesmo oferecer-me em troca nova aquisição. Mas passavam-se os anos e as perdas continuavam a medrar, arruinando o tempo, roendo-o pior que bicho da madeira. Ou verme antecipado.
Foi assim que me ocorreu o fim da história. Dias a fio medindo forças com as pernas, insultando-as. Noites em que as carregava às costas e deslizava pela casa toda, abria as janelas, batia os tapetes, esfregava os vidros, a limpeza geral da Primavera. As pernas moucas nunca me fizeram a vontade, como de resto ninguém fazia.
Por isso fui fechando os olhos cada vez mais longamente, cada vez mais fundo. Até que alguma coisa cheia de dó mos fechou para sempre.

Tenho uma filha e um neto, tenho uma casa na terra, outra no céu.    

1 comentários:

Carlos disse...

A efeméride recorda a perda na voragem dos dias.
A Margarida do campo Alentejano consegue ainda escapar ao buraco negro do tempo, e por momentos abandona a tela das recordações, transmutando-se na terceira dimensão da profundidade ausente.
Somos apenas espectadores, alguns atentos, da vida que nos escorre pelos dedos, barco á vela de leme quebrado. Apenas a distância, nos mostra a verdadeira dimensão da vida.
Apenas a perda nos talha o valor do ser.

Beijo

CPi