Então houve o dia em que os pés esqueceram o ritmo da máquina de costura. As pernas esqueceram o caminho para o mercado. As vizinhas deixaram de coscuvilhar portas adentro. As paredes esconderam o horizonte. Como uma pedinte, mendigava até por um copo de água no cárcere do lar que fora meu. O bolor bichando a casa e o corpo amarrado, sem chegar nem a meio caminho dos olhos estarrecidos.
Quando perdia um movimento, um irmão, uma palavra, pensava que fora a perda última. Que as perdas estão contadas pelo poder superior, tão compassivo que encurtaria o número final. Com muito pensamento piedoso, de parte a parte, talvez pudesse mesmo oferecer-me em troca nova aquisição. Mas passavam-se os anos e as perdas continuavam a medrar, arruinando o tempo, roendo-o pior que bicho da madeira. Ou verme antecipado.
Foi assim que me ocorreu o fim da história. Dias a fio medindo forças com as pernas, insultando-as. Noites em que as carregava às costas e deslizava pela casa toda, abria as janelas, batia os tapetes, esfregava os vidros, a limpeza geral da Primavera. As pernas moucas nunca me fizeram a vontade, como de resto ninguém fazia.
Por isso fui fechando os olhos cada vez mais longamente, cada vez mais fundo. Até que alguma coisa cheia de dó mos fechou para sempre.

1 comentários:
A efeméride recorda a perda na voragem dos dias.
A Margarida do campo Alentejano consegue ainda escapar ao buraco negro do tempo, e por momentos abandona a tela das recordações, transmutando-se na terceira dimensão da profundidade ausente.
Somos apenas espectadores, alguns atentos, da vida que nos escorre pelos dedos, barco á vela de leme quebrado. Apenas a distância, nos mostra a verdadeira dimensão da vida.
Apenas a perda nos talha o valor do ser.
Beijo
CPi
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