Quando nos impuseram a inevitabilidade e nos roubaram a palavra alternativa, ofereceram-nos um presente precioso: a interrogação do supérfluo.
Sem querer desenharam-nos um cartaz no qual está escrita a palavra ESCOLHA.
Escolhemos, por exemplo, Sophia, prometendo regressar em busca dos momentos que passou longe do mar ou dizendo o desejo de lisura e branco
"Um arco que se curve - até que o pranto
De todas as palavras me liberte."
Escolhemos Ruy Belo e o valor do vento, que entra nos seus versos de todas as maneiras
"Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto"
Escolhemos Óssip Mandelstam "contornando o sono e a morte _ ouvir
o eixo da terra, o eixo da terra."
Ou Paul Celan,
"Fala também tu,
fala em último lugar,
diz a tua sentença."
Apollinaire,
vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure
E fica este céu, azul às vezes, outras de nuvens com formas esculpidas para imaginarmos outras formas, outro azul. Fica o mar, o longe que nos leva. Desconhecem o nome do país onde, generosamente, se demoram.
Escolhemos o olhar; a luz que vem, por exemplo, do fundo de uma mina chilena (a suspensão do egoísmo por um dia). Escolhemos, serenamente, o profundo movimento da terra.
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