Sábado, 11 de Dezembro de 2010

as palavras vão ao ginásio

Tenho andado para aqui em intensivos exercícios de ginásio mental a ver se consigo acompanhar o ritmo a que as perplexidades me tolhem as palavras. É que quando vou para dizer "não é possível" a uma novidade logo outra, ainda mais nova, me faria dizer "não acredito". Não passam mais de 24 horas entre uma incredulidade e outra mais intensa. A vertigem do andamento do tempo às arrecuas também não ajuda nada. Em vez da palavra vem um riso estúpido, sucedâneo das lágrimas que o susto empurra para uma raiz crescendo em profundidade, incapaz de extravasar. Absortas no pavor, andam as pessoas por aí aparvalhadas, a chocar gastrites. Apartadas dos seus significados, andam as palavras aos soluços, evitando armadilhas de irreversibilidade.
Imparável o arrojo do exército persa (usando a invocação de Salamina que Hélia Correia publicamente fez há alguns dias).
Por exemplo:
acho graça àquele argumento das regras a meio do jogo e outros clichés nesses arredores - creio que se referem aos princípios da segurança jurídica, da boa-fé e de outras regras obsoletas - a propósito da fuga fiscal, quando não há santo dia em que não mudem os modos de extorquir aos espoliados as básicas migalhas da sobrevivência.
Contavam os empregados, já não digo com um emprego, mas pelo menos com o direito a indemnização quando postos porta fora sem motivo; pois bem, tirem daí o sentido, se alguma coisa levarem será o que pagarem previamente, que o bolso patronal necessita de assistência.
Contavam os que recebem 475€ de salário mínimo receber mais 25€ no próximo ano. Pois contavam, mas não é possível, o ministro da economia explicou-nos que "é preciso empurrar a economia para a frente", ou seja, que as empresas amealhem e que os seus "colaboradores" poupem no leite.
Contavam os funcionários públicos...adiante.
Contavam os estudantes receber a bolsa a que têm direito no princípio do ano lectivo. Pois contavam. Mas deixaram de contar.
Etc. etc. etc.
E há aquela encantadora coincidência de se promover a miséria, por causa do austeritarismo TINA (There Is No Alternative) naquele que se nomeia ano mundial contra a pobreza. Não faz mal nenhum, substitui-se a busca da justiça pela caridade natalícia; a já de si eufemística "coesão social" pelo banco alimentar. O que levais no colo? São restos, meu senhor, sobras do restaurante, "todos os portugueses deviam sentir-se envergonhados" (todos, percebem? incluindo os que, por mau destino, caíram na miserável condição).
E os impostos aumentam, sim, mas não para alimentar o monstro do estado
aliás o que é um estado?
talvez um estado de excepção. Uma excepção permanente, sem regra alguma que possa durar mais do que o momento de a impor. Era uma vez a democracia que se instalou na europa, langorosa, como se tivesse achado o seu lugar cativo. Um belo dia...
o que é uma união de estados?
que monstro alimenta este blood sweat and tears, ou é por ele alimentado?
quem é que fala fardado de Angela Merkl?
Aumentam, sim, os impostos, mas para salvar SALVAR salvar... a economia a soberania os mercados alguém uma coisa qualquer. Pagam as pessoas para salvar os seus poderosos inimigos.
Quanto nos vale a ironia? Coitada da ironia, tão sozinha, tão fora de moda. Coitados dos campos, que não são álvaros nem são capazes de emigrar nem de compreender o psi20. Permanecem, caeiros, impassíveis, desnavegantes, lusos, globalizadamente lusos.
Adeus ó Esteves, adeusinho e até à próxima.
As palavras regressam ao ginásio (IVA 23%). Hei, onde é que vocês vão? Esperem por mim

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