Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011

dez anos depois

3-Jan-2001

"Quando saí do metro deviam faltar um ou dois minutos para o comboio partir (o relógio que usava é um primor de elegância mas não tem algarismos). Ainda é um esticão, entre o terminal do metro e a plataforma do Cais do Sodré, com muitas escadas pelo meio."

3-Jan-2011

Quando saí do metro deviam faltar um ou dois minutos para o comboio partir (não olhei para o relógio, tanto me fazia apanhar aquele comboio ou o próximo). Ainda é um esticão, entre o terminal do metro e a plataforma do Cais do Sodré, com muitas escadas pelo meio.
Resolvi esticar ainda mais o espaço, à medida do tempo. Entrei na tabacaria, passei os olhos pelos títulos dos jornais, pelas produções gráficas das revistas, pelos livros que atraem tanto mais quanto menos se distinguem do mesmo grafismo que berra aos nossos olhos. Depois entrei no supermercado, direita ao essencial: pão, fruta, legumes.
A estação do Cais do Sodré está mais acolhedora. Tem uma loja de produtos dietéticos, um café-snack, uma lojinha de moda barata. Ampara-nos a espera.
Em contrapartida o horizonte mirrou, a distracção foi proibida. Por todo o lado a imaginação vai sendo confiscada. A geometria das linhas do comboio na sua luminosidade ao fim da tarde, que me fascinara há dez anos, tornou-se invisível. Há uma escuridão que protege e confina. Como se a Europa central tivesse feito um raid e arrebatado a luz de Lisboa, sem trazer nada em troca. Deixando-nos a sós com a tristeza.
Se calhar fui eu a assaltada. A Europa Central, ou então esta década estranha, foi distorcendo as proporções entre luz e pensamento. Acerca de espaço e liberdade, a meditação que me surgiu, como sempre em forma de imagem-relâmpago, enquanto subia as escadas do metro: uma parede; à direita um preso, entre a cela e o refeitório atravessando corredores ruidosos, o percurso da fúria; à esquerda alguém sentado no chão de uma cidade infinita, um copo com moedas aos pés. Curiosa amplidão do mundo, que se reduz perante os criminosos mas se reduz ainda mais à vista dos desapossados. Nem caminhos, nem atalhos nem sequer corredores para os que nascem no vazio.
Estarei talvez demasiado perto do chão. Vejo pouco e perto. Baixita, mesmo de saltos altos.
Ao longo da plataforma, buscando a carruagem da frente. Passo pela multidão em sentido contrário; de manhã tinha ido com ela, em busca da cidade. Alguma luz ficou, mais íntima. Vem da chuva, do rio. Da água. Nunca vai.

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