Compreende-se a perplexidade. Como é possível não nos entenderem aqueles a quem amorosamente nos dirigimos?
Queridos amigos, falem com eles demoradamente, aprendam a conhecê-los. Sem os conhecermos não vamos lá. Reparem:
Hoje em dia o povo não resiste; cada plebeu é "resiliente", suporta tudo com estoicismo, resmunguice e auto-estima. Cultiva a auto-ajuda nos manuais da ilusão. O saber ocupa um lugar extravagante, a filosofia chega aos lares em pacotinhos de açúcar e forwards que cumprem três desejos.
Hoje em dia o povo jamais se quer de pé. Para cada um há sua cama e seu sofá. Seu terminal de desespero e compaixão personalizados. Aliás ninguém anda: ou marcha, ou faz jogging ou desliza de avião, carro, skate, prancha de surf. Entretanto exercitam-se os dedos digitando as intenções e as confidências.
Hoje em dia o povo não se move por vontades, muito menos por uma só, concertada e ampliada. O interesse de cada penitente conflitua com o do vizinho de forma irredutível. Têm tudo em comum, incluindo a certeza de que coisa nenhuma os pode unir.
O povo não se vê ao espelho da desgraça. Cada cidadão passa o espelho para a frente do parceiro, como quem passa no jogo da bisca (ou do burro?). E tem razão. Ninguém precisa que lhe devolvam uma imagem que não pode retocar. O photoshop inventou-se para alguma coisa e a caridade precisamente para o mesmo.
O povo não é índio nem cobói. Somos todos gregos. E troianos. Ninguém nos pode defender. Deixamo-nos representar mas com repulsa. Com desprezo por quem se atreve a sugerir o que é melhor para nós. Queremos sossego, sim, desde que nos deixem ralhar com quem nos quer em paz. Com quem quer ensinar o padre-nosso aos vigários que nos prezamos de ser.
Povo que ralha não morde.
Nós é que decidimos não querer decidir nada.
E santos da casa não fazem farinha, quanto mais milagres.
Escutarmo-nos, entendermo-nos com paciência, sem arrogância, sem ilusões. Reinventarmos as virtudes, as palavras e a acção. Repetir, serenamente, que o medo não guarda a vinha, não guarda a democracia, não guarda a vida.
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