1. A MÃO ESQUERDA DE PENÉLOPE
Sabiam que no dia em que a Penélope foi anunciado o milionésimo pretendente deu-lhe uma cãibra feia na mão direita? Pois era esta mão, escarninha e invejosa, quem guardava a fidelidade da possuidora. Enquanto a nocturna esquerda tecia o pano da esperança (que os tempos deturparam em elidida espera) a gémea diurna desmanchava prazeres, ou seja, a tecitura. (Esta troca entre noites e dias também é atribuível aos pontos desacrescentados que se transmitem nos contos valdevinos).
Os pretendentes anunciavam-se e tentavam espreitar, mas só uma cortina os recebia. De noite a escuridão, de dia não e não. Não, diziam as criadas. Não, diziam os criados. Não, diziam as portas fechadas e as janelas cerradas, não e não.
Mas naquela lua cheia esplendorosa os olhos de Penélope estavam ébrios. Saltaram o muro da esperança e ousaram perder-se aquém do mar. Foi assim que encontraram os olhos do milionésimo pretendente. Gotas de orvalho azul, pareceram a Penélope esses olhos mudados pela luz enganadora. Orvalho azul nascido numa terra salva das leis da natureza. Orvalho azul que só os deuses podiam enviar.
O pretendente percebeu o que o erro da luz lhe permitia e avançou um passo. Senhora, ousou dizer. E quando o disse a voz confirmava a natureza encantada do olhar suplicante. E o porte a confirmava. O cabelo marejado em ouro, as sandálias reluzindo a areia da última maré.
Assim, embora os olhos de Penélope tivessem fugido para o canto resguardado e a cortina cerrada por multiplicados não e não, a luz de orvalho colara-se à retina com tal esmero que quanto mais o olhar se encaminhava para dentro de si mais nítido o outro olhar se lhe tornava.
Para disfarçar a languidez, a mão esquerda de Penélope trabalhou nessa noite redobradamente. Ao ponto de concluir um pano magnífico, translúcido e dourado, como se o próprio mar tocado pela lua se estendesse pela casa e pela ilha.
Quando a madrugada abriu o mundo à verdadeira luz, e a serva entrou para receber as ordens matutinas, não conseguiu conter o espanto. Senhora, disse, observando o pano com todos os dedos assombrados, quantas horas extraordinárias terá vossa formosa mão direita que fazer neste dia tão curto? Se descansardes mais do que uma hora escasso será o tempo para desfazer a obra a que só o debrum fica a faltar.
Foi nessa altura que a cãibra se instalou na dextra mão que a esperança até esse momento guiara com perícia.
Desfaz tu, serva minha, que eu não posso. Um estranho orvalho azul penetrou-me o olhar e foi descendo sobre a mão, não sei que tenho.
Vou correndo pelo médico, então, ficai quieta que não demoro nada.
Não vás, não vás, gritou Penélope. Tu própria disseste que ainda falta o debrum, uma noite inteira de trabalho. Deixa-me descansar até que a lua nasça.
Teria descansado, se o coração não teimasse em ficar ao pé dos olhos. Se contivesse um alvoroço que toldava a consciência, impedindo-a de vencer ou de ceder. Mantendo-a num limbo entre devaneio e vigilância. Pressa. De que o luar nascesse e dele rompessem os olhos pretendentes. Só a mão direita, adormecida, descansou sem remorsos nessas dobradas horas.
O erguer da lua, num declínio imperceptível que só da adolescência se afastava, não apanhou desprevenida a tecedeira, que do apogeu guardava igual distância. Ei-la que dispensa a refeição vespertina bem como a companhia dedicada. E recatadamente espreita pela fresta.
Senhora, ouve ela, tal qual como na véspera. Senhora, ouso pedir-vos a graça de um olhar, nada mais quero.
Rosto velado, mas graça concedida, através dessa nesga que a arte e o tempo juntos construíram. Mas ó qual espanto, quanta decepção. O porte, o olhar, as sandálias e a voz do milionésimo pretendente persistiam orvalho azul, bálsamo verdadeiro. Mas o defeito que ostentava curou impiedosamente a mão direita pretendida, gelou o coração: um duplo queixo que mais parecia inchaço de maleita irreversível. A pele amarelada que a barba não escondia e a calvície que lhe lavrava o crânio até metade completavam o desastre.
Com o susto Penélope deu um ai tão profundo que por pouco não lhe denunciava o desvario. Pensou em Ulisses. Pensou no tempo que decorrera desde o último dia. Pensou nas sucessivas noites, nas sucessivas madrugadas. Nos mares, nas areias, nas tâmaras, nos luares tantos e tantos. Imaginou-o ali, a irromper pela casa, a tomá-la nos braços. Viu-lhe distintamente o duplo queixo, a pele amarelada, a calvície inexorável. Nesse momento a cãibra abandonou a mão direita, sem saudade. Mas mudou-se, de armas e bagagens, para a mão esquerda. E ali permaneceu até a história poder voltar a ser contada.

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