2. A Filha do Monginho
Aos quatro anos a gaiata sentava-se a uma mesa do café Mina Velha, em Queluz, mastigando um queque bem tostado (a passa de uva primeiro, depois as pontinhas em relevo) e preenchendo os quadradinhos das palavras cruzadas com as letras de um abecedário roubado ao nome das ruas. As mesas do café eram de granito e mesmo em dias de sol fazia escuro. Entretido a dar umas tacadas, a bola marcada sempre em mira, só de vez em quando olhava para o lugar onde o vultozinho compenetrado na invenção da escrita mordiscava o bolo. Mantinha-me tranquilo, sabendo muito bem que tanto empenhamento aniquilava eventuais tentações perturbadoras. Tudo o que nela agia eram os dedos vincados na caneta cor-de-rosa, os joelhos baloiçantes. Até que uma vez olhei e nada.
Nada. Esse escuro no escuro, a ausência das meinhas brancas a baloiçar. Terá fugido? Terá sido arrebatada por um anjo? Terá sido absorvida pelos quadradinhos ou pelas letras dentro deles? Raptada como a mãe dela temia nos pesadelos da madrugada? Onde está a minha filha? O taco deve ter caído ao chão. Uma bandeja com cariocas e bicas a escaldar deve ter caído ao chão. Toda a gente no café deve ter-se assustado com o meu grito.
Onde está a minha filha?
Contaram-me depois que o meu grito se multiplicou num burburinho de vozes alarmadas porque ninguém tinha visto o momento. Toda a gente gritava, Onde está a filha do Monginho?
Mas o momento não tinha existido. Havia um par de meinhas brancas a baloiçar no escuro. Depois havia o escuro no escuro. Entretanto, nada. Corri para a rua e lembro-me de ter ficado quase cego ao olhar para a montra da tabacaria em frente, que era o espelho do sol ao meio dia e onde nem o Esteves me salvava.
Onde está a minha filha?
Onde está a filha do Monginho?
A enxurrada de gente a sair do café e a concentrar-se no passeio era já uma turba em agitação. Muito perigoso naquela época. Estávamos em 62 e a Nação exigia aos seus filhos que se acomodassem a falar sozinhos porque até as paredes tinham ouvidos imunes à surdez. Mas ninguém se importava com isso porque era preciso salvar a miúda da caneta cor-de-rosa, a que não era filha da Nação mas sim a filha do Monginho. À falta de outro agente mais habilitado nas imediações, o polícia sinaleiro desceu do pedestal e chegou pressuroso, apitando furiosamente, ao centro do ajuntamento.
O que é que se passa aqui?
Dezenas de vozes atropelavam-se em explicações várias e um pânico só. Senti alguém amparar o meu braço enquanto virava e revirava esquinas e regressava ao mesmo escuro que era o espelho do sol. Até que de repente olhei de novo para a tabacaria e lá vinham as meinhas brancas a baloiçar em passinhos muito compenetrados. A minha filha
A filha do Monginho!
saía da tabacaria comendo chocolate em forma de sombrinha, pela mão da Hermínia Silva. Por essa altura a Hermínia Silva era já entradota mas ainda dava brado como a grande cantadeira, o reverso da Amália. A voz pingada de ginginha e sol versus a voz da tragédia revelada pela noite.
Então lá vinham as duas, com o ar mais pimpão que imaginar se possa. Não me perguntem como é que a fadista teve a arte de entrar pelo Mina Velha dentro sem ser reconhecida, abeirar-se da menina escritora e levá-la a passear sem ser reconhecida e sem ninguém dar por isso. Os intróitos do episódio permaneceram um mistério, dado ninguém se importar com eles face ao espectáculo que se lhes seguiu. O pessoal ficou tão estupefacto com a cena que cada um, incluindo eu, estacou na exacta posição em que se encontrava antes de as duas aparecerem. A máquina de projectar tinha emperrado e pelo ecrã adentro fez aparição um par de miúdas atravessando a rua, ou seja, o mundo, gingando e comendo chocolates em forma de sombrinha.
Sim, porque a D. Hermínia também se amandava à guloseima, enquanto ia trauteando em lalaralalá um fadinho na berra. O próprio polícia sinaleiro, o único possível guardião da ordem, estacara com o braço esquerdo levantado, a mão fechada sabe-se lá por que carga de água – talvez tentando agarrar um colarinho fugitivo -, a mão direita segurando o apito e o apito segurando a boca para não cair de espanto. Mas pelos vistos continuava a inspirar e a expirar, sobretudo a expirar, porque o apito ia estridenciando numa cadência regular. De modo que, à falta de guitarra e viola, a voz da grande Hermínia era acompanhada por um apito de polícia sinaleiro, facto digno de ser perpetuado em registo fonográfico, infelizmente impossível de realizar com os recursos disponíveis. Pouco a pouco a voz foi-se elevando e o apito perdendo em vigor o que já em engenho lhe faltava. A certa altura a Tendinha
essa tasca humilde e terna
que mantém a tradição
era projectada num raio de pelo menos quinhentos metros e, tal como o tinha paralisado, desparalisava agora o pessoal, que acompanhou o refrão num coro cheio de pundonor
da boémia ou do pimpão
até à apoteose da salva de palmas final. Um quadro que merecia ter entrado num filme do Leitão de Barros, esse da multidão entoando a Tendinha à porta do café Mina Velha, enquanto a cantadeira, depois de uma vénia e de um aceno, se desvanecia no éter como dele surgira, para deixar o protagonismo à filha do Monginho. À minha filha, entrando no coro com uma voz tão afinada que sobressaía das outras todas. Não bastavam as letrinhas no jornal, também era preciso ter aquele ar de artista diplomada, mãozinha na anca, vozinha alevantada e aí vai disto.
Sempre que vejo a fotografia, captada por uma máquina milagrosamente a postos nas imediações, e me vejo a mim espreitar, olhos de tartaruga míope que só os do Pacheco agigantavam, atrás das duas vedetas canoras, lembro-me da única coisa que o meu pai me ensinou sobre a vida. Aliás, lembro-me sempre disso quando vejo as minhas fotografias do passado oblíquo que vivi. Dizia-me ele
Quando as mãos seguirem o tactear do coração saberás que é caminho.

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