Sábado, 4 de Junho de 2011

os pepinos espanhóis

A história dos pepinos espanhóis é o sonho de muitos criadores: uma só frase e de repente o mundo é outro. O mundo passa a girar à volta dessas palavras-choque, tão mortais como a bactéria.
Bem podem duzentos estudos, ou o simples bom-senso, desmentir o estribilho inicial. Nada a fazer. O meteoro caiu, o medo - esse grande escultor - inibiu a reflexão, tão cedo ninguém come pepinos.

Já era assim com o slogan da "inevitabilidade", o massacre cujo efeito ainda vai no adro.

Enfim, o segundo rapto de Europa repete em tragédia o que era o encanto do primeiro.
A filha de Argenor, ao que apregoa a nova lenda, continuava a divertir-se com as companheiras junto das águas azuis do Mediterrâneo. Mas agora já é avó de muitos netos a competirem pela herança. Já não atrai a atenção de Zeus, mas sim a de uma conhecida ave de rapina que lhe estende com perfídia o dorso dourado. Ela deixa-se ir, entregue à extraordinária aventura de cair aos pedaços. Já nem pergunta para onde vai.

E nós com isso?
Nós tudo com isso. Nós, europeus, somos as mãos e o pensamento da princesa decadente. Ou interrompemos a viagem ou somos arrastados para uma ilha calcinada, antípoda de Creta.
Nós, particularmente, criadores que abominamos a água suja e os clichés, por que não reflectimos sobre o que queremos e podemos?
Acreditamos realmente que podemos lavar as mãos em água esteticamente pura?
Preferimos assistir? Conformados? Horrorizados?
Ou inventar viagens novas?
Se ouvirmos e calarmos como os outros para que é que queremos voz?

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