Segunda-feira, 6 de Junho, de manhã. O casal à minha frente vinha regular as responsabilidades parentais da filha, depois da separação. Tudo amigável, tranquilo, para variar. O único problema era o da pensão. O homem, nos seus trintas envelhados, encardidos, humildes, não tinha como dar um cêntimo. Faz empreitadas para carteiros (encarrega-se de distribuir revistas, maçada que eles dispensam) e ganha à peça. No máximo 150 euros por mês. Os braços fraquitos, apesar de tatuados, não dão para mais. É a vida.
E agora?
Agora (dizia ele) talvez o Fundo de Garantia.
Estava a pensar no Fundo de Garantia de Alimentos devidos a Menores, criado para substituir o devedor, quando este falha e o rendimento per capita do agregado da criança é inferior ao salário mínimo nacional (depois de um dos PEC a Lei da condição de recursos baralhou a fórmula, a criança passou a contar metade, muita gente perdeu o direito à intervenção do FGADM).
O Fundo de Garantia? Com o programa da troika??
O senhor sabe em que país é que vive?
Por acaso (olha para a ex-mulher, em busca de socorro) nem sei quem é que ganhou as eleições. Quem é que ganhou?
Elucidado, o sorriso cabisbaixo deixa à mostra os dentes de tabaco e sabe-se lá mais o quê.
A diligência ia chegando ao fim. O meu impulso de curiosidade foi irresistível
O senhor foi votar?
Fui, mas...
Começou a levantar-se, molemente. A t-shirt do Che Guevara estava tão amarrotada como o sorriso, como os dentes, como ele.
Mas o meu partido é dos pequeninos, nunca ganha. É o PNR.
Deixo esta história verdadeira, passada em Lisboa, à atenção da esquerda. Especialmente do socialismo democrático.
Que tal irem conhecer a realidade? Irem por aí, em acções não de campanha mas de genuíno entendimento, perceber como vivem as pessoas, o que pensam as pessoas, o que são as pessoas?
No mundo da crueldade económica as pessoas, incluindo o "precariado", votam em quem "pode fazer alguma coisinha pelos pobres". Em quem pode. Em quem manda. Ou então esperneiam ao deus-dará, sem alvo à vista. As armas que têm na mão são coloridos boomerangs envenenados.
Nos territórios sinistrados o ânimo transformador costuma ficar de rastos. A ideia de transformação tem sido humilhada como fantasia extra-terrestre. É assim mesmo, ridícula e moribunda, que os poderosos a querem.
Não precisamos de a tratar como espécie em vias de extinção. Precisamos, sim, de a reinventar, com conhecimento, imaginação e liberdade. Perguntas: quem somos "nós"? Quem podemos vir a ser? O que queremos? Lá mais para diante, então, como vamos fazer?
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