Domingo, 31 de Julho de 2011

diferentes maneiras de chegar

Já estava quase convencida de que o futuro seria o regresso à era das cavernas, ao tempo anterior àquele em que o homem mergulhou a mão na tinta para deixar na parede a marca da interrogação. Mas eis que dou com ele, sentado no bar das chegadas do aeroporto de Lisboa.

Tinha casualmente assistido em directo através da CNN ao terror da deflagração em Oslo. Utoya era ainda uma ilha abstracta onde parecia ter ocorrido um incidente com armas de fogo. Como toda a gente, vociferei contra o fundamentalismo islâmico durante aquela primeira hora. Até arranjei maneira de encaixar a data: 22, o dobro de 11, bendita matemática.
Depois foi o que se viu, para crer.
Todos os extremismos enlouquecem. O próprio facto de acolhermos o discurso do ódio, de o absorvermos e integrarmos como se fosse natural, como se fosse democrático, significa que estamos dispostos a recuar ao tempo primitivo.

Foi então, algumas horas depois, que vi o compositor no bar do aeroporto. Loiro, olhos azuis, sentado frente ao portátil. Concentrado na música, o tronco marcando o compasso na cadeira, os pés marcando-o no chão. De vez em quando os braços formavam o andamento, um ou o outro, um ao outro, a mão ajudada pela outra mão.
Não sei o que estudava, o que compunha. Ignoro se o tumulto de tantas vozes desassossegadas pela viagem, tão distintas maneiras de chegar, integravam o seu processo criativo. Não quero saber se a música a germinar na cabeça do compositor há-de um dia ser banda sonora de uma carnificina perpetrada pelo ódio.
Sei, sim, que enquanto se mergulha a mão na tinta, enquanto se desenha a partitura, enquanto se interrogam as palavras, há um homem que cresce e se anuncia, sem vontade de retroceder.    

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