"No primeiro dia de Novembro de 1755 Lisboa foi arruinada pelas forças combinadas de um sismo violentíssimo e invulgarmente longo, um maremoto que lançou ondas gigantescas sobre a costa e diversos incêndios, um dos quais consumiu todo o centro da capital portuguesa".
No primeiro dia de Novembro de 2011, o novo terramoto está em curso. Só agora começamos, assustados, a tentar abrigar-noa debaixo de abóbadas e portadas. A manter os filhos agachados ao pé de nós, protegendo-lhes a nuca com as mãos.
Neste peculiar terramoto não é só a terra que treme debaixo dos nossos corpos. Toda a paisagem e o ar que respiramos se movem num vórtice sufocante. O movimento caricato que descrevemos ao cair não resulta apenas da falta de equilíbrio. Caímos como parafusos em parede movediça, sentindo-nos incapazes de furar ou esbracejar.
"O Terramoto ou Desastre de Lisboa, como foi chamado pelos contemporâneos estrangeiros, era certamente uma singularidade, uma ruptura violenta da ordem histórica. Se há candidatos sérios a "dia que mudou o mundo", o 1º de Novembro de 1755 é um deles".
Desta vez o dia prolonga-se por muitíssimas horas penosas. Ignoramos qual foi a primeira (a falência do Lehmon Brothers? A birra de Merkel? As notações da Moody's?). Ignoramos quando será a última.
Sabemos, sim, desta vez sabemos, que a culpa não cabe a Deus nem à Natureza.
Nem a nós, pequenos parafusos.
Quem nos pôs a sonhar com extensões de areia fina e betão, onde saltitámos imaginando-nos artistas, são os mesmos que nos roubam sonho, vida e paz.
Para eles não merecemos nem um R.I.P. Querem-nos a expiar uma culpa alheia, mesmo depois de mortos.
Resta-nos a dignidade de não morrermos quietos. Somos muitos, não somos? Somos parafusos, não somos? Os parafusos sabem onde dói.
(citações de "O Pequeno Livro do Grande Terramoto" - Rui Tavares)
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