Queremos viver em Portugal, dizem as crianças em coro, pleeeeease.
Os pais sorriem. Descem um degrau na escada do horizonte, sobem dois na escada do amor.
Têm a certeza? Querem ir para uma escola nova, passear em jardins diferentes, fazer novos amigos?
Yes, portuguese friends, yes, respondem os meninos.
Se concretizar esta paixão à primeira vista, a família será evacuada no plano de emergência traçado pelo governo britânico para a salvação dos seus cidadãos residentes em Portugal.
Ou me engano muito ou, se esse dia vier, muitos de nós, portugueses, estarão dispostos a apurar um sotaque british para se fazerem passar por súbditos de sua majestade. Para fugirem desta praia rectangular que só fascina os inocentes que ainda acreditam em coisas simples e inexplicáveis, como a cor azul, as histórias, as magias; só encanta os pequenos habitantes de uma civilização antiga, que reagiam às forças ocultas com o poder de nomear e de construir a partir dos nomes narrados a sua identidade.
A atracção do impossível é tão forte que pode levar o desejo ao exagero. Com esta ressalva, e apesar da raiva que me daria fazer a vontade ao primeiro-ministro, sinto que se fosse mais nova e livre não ficaria na pátria nem mais um segundo. De bom grado iria passar já o ano à luz de outras estrelas, sem regresso próximo. A partida de que falo, contrária ao exílio interior desta conjuntura ruinosa, parece ser o único bálsamo na ferida que nos abriu a falta de inteligência e de virtude. Abalada feliz, o oposto da saudade.
Sair daqui, não para fugir do azul que desdenhamos e que, pelos vistos, não merecemos. Apenas para respirar melhor e poder encará-lo sem que nos magoe.
Aos meninos ingleses, Joan e Paul, vamos chamar-lhes assim, desejo que não cresçam. Que não estudem finanças ou, pelo menos, que não imponham a ninguém ideias e interesses malfazejos. Que conservem os olhos azuis, mas não se chamem Thompson.
Aos meninos e aos crescidos portugueses desejo que não tenham paciência. Que celebrem o fado apenas como património imaterial, um luto imponderável em forma de música.
Que não façam preparativos para mais 48 anos.
Que não fiquem quietos a ouvir uma história, ninguém a conta melhor do que nós.


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